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Foto:Equipe Esquerda Online
Me surpreendi com um texto que fala de “ecossocialismo”, “revolução” e até mesmo de “leninismo”. O manifesto faz questão dizer que a nova organização será mais ousada que a antiga Resistência. “Porque não viemos apenas resistir ao deserto. Viemos preparar a chuva, arar a terra e abrir caminho para o que ainda pode nascer”. Sinaliza um giro à esquerda, depois do fim do “projeto Boulos”.
Fica a expectativa do quanto essa intenção de ousadia será real ou meramente estética. O pé atrás fica por conta de algumas omissões interessantes deste manifesto. A posição em relação ao governo Lula e outros governos de “Frente Ampla” não é citada em absolutamente nenhuma linha. Como a nova corrente vai se posicionar quando for necessária a independência em relação a esses governos, como o recente caso da luta indígena contra a privatização de hidrovias no Pará?
Outra omissão importante é a completa ausência da necessidade de construção de uma internacional. A Resistência rompeu com a IV Internacional em 2025. Qual é a alternativa apresentada? Como os revolucionários podem organizar de forma prática seu internacionalismo? Isto não é uma obrigação de uma panfleto de chapa de DCE. Mas um manifesto de uma organização política que veio da tradição trotskista deveria ao menos falar sobre isso.
Uso o termo “veio da tradição trotskista” pois não sei se essa nova corrente se considera trotskista. Provavelmente a resposta seria que “esses rótulos são coisa antiga”. Ou seja, ser trotskista é “cringe”. Tá. Mas essa nova corrente é o que então? Faz parte de qual tradição dentro da esquerda? É apenas “marxista-leninista”? É ecossocialista? Neste último caso, tem acordo com o manifesto ecossocialista, aprovado no último congresso da IV Internacional? O manifesto deixa tudo isso bem vago.
Militei no PSTU e fui da dissidência que se tornou o MAIS, que depois se fundiu a outros grupos e passou a se chamar Resistência. Vi as mudanças acontecerem. Os núcleos de base, onde toda a militância se organiza em pequenos grupos que se reúnem com regularidade, atuam cotidianamente em uma frente de trabalho e onde todos têm o mesmo direito a voz foram substituídos pelas plenárias regionais que acontecem de meses em meses, onde a direção informa para a base qual foi a decisão tomada.
Ali tem pessoas que eu respeito muito e sei que são comprometidas com a classe trabalhadora. Certamente estaremos juntos na principais lutas. Mas a identidade política vaga da nova organização é preocupante. Quando você não aponta a vela para um lado, é a correnteza que te leva.
*Ademar Lourenço é jornalista e titular do quadro “Conexão Brasília”, da Rádio Censura Livre. Texto publicado numa rede social do autor.
Leia o manifesto do Semear aqui 👇🏿
https://esquerdaonline.com.br/2026/03/22/semear-o-futuro-e-um-brasil-socialista/