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Imagem: Reprodução
[Tela-mural “Manifestación” (1934), do pintor argentino Antonio Berni].
Por Rafael Rossi*
A classe média trabalhadora brasileira cada vez mais sustenta seu consumo com crédito, enquanto os salários perdem para a inflação, os juros altos e altos impostos no consumo e na renda de quem é assalariado e não se encontra na faixa de isenção.
O endividamento das famílias ameaça o consumo no futuro e o nosso próprio mercado interno. Enquanto isso, os mais pobres dependem cada vez mais de benefícios e auxílios sociais que podem ser retirados com uma canetada.
Já os mais ricos acumulam um patrimônio cada vez maior com ativos financeiros, renda fixa com juros elevados e imóveis rurais e urbanos.
Para piorar, nós perdemos a batalha política pela re-industrialização do Brasil. Tudo indica que até 2030 o ciclo político da centro-esquerda no poder irá se encerrar e o governo Lula 3 está mais parecido com o governo Dilma 1 do que com o governo Lula 2, ou seja, aumentou o consumo das famílias, mas sem um aumento real de produtividade com desenvolvimento industrial relevante.
Sem falar que nem se fala mais em reforma agrária. O latifúndio foi normalizado, e o agronegócio foi aceito como o principal ramo da nossa economia definitivamente.
Com isso, a tendência é que no futuro sejamos um país de baixa renda e não mais um país de renda média com uma classe média em ascensão.
Mesmo os ganhos materiais e financeiros da isenção de IR para quem ganha até R$5 mil terão sua fatura cobrada sobre os servidores públicos com a aprovação da reforma administrativa, do mesmo modo que o auxílio emergencial na pandemia foi pago com o congelamento dos salários dos servidores públicos federais, estaduais e municipais.
Em um país agro-exportador, uma máquina pública que garanta recursos para a Educação e a Ciência, por exemplo, deixa de se fazer necessária.
A dívida pública seguirá aumentando sem aumento da produtividade do trabalho, com aumento das importações e do PIB a partir de crédito e benefícios sociais.
Lá na frente, isso será cobrado com uma nova reforma da previdência depois de 2030. O comércio de roupas, calçados, eletrônicos, carros e eletrodomésticos deve ser afetado entre 2027 e 2034 – quarto e último mandato do governo Lula e o novo mandato de um novo governo (provavelmente da direita liberal).
Quem quiser o mínimo de dignidade na velhice vai ter que complementar a aposentadoria com uma previdência privada e/ou investimentos em títulos públicos do Tesouro Direto. Haverá um movimento de poupança forçada reduzindo o consumo interno.
No entanto, diferente da Ásia, de países como o Japão, não seremos exportadores de tecnologia e de produtos industriais. O fato das tarifas de Trump não terem arranhado nossa economia foi bom e ruim. Foi bom porque não prejudicou nossa economia. Foi ruim porque praticamente selou o futuro do Brasil como potência agro-exportadora e o celeiro do mundo, especializado em produção agrícola e pecuária em detrimento da indústria nacional.
Chega a dar saudade do tempo em que comprávamos vários produtos da Zona Franca de Manaus. A Embraer e a Petrobras são sobreviventes do sonho desenvolvimentista brasileiro. Mas o futuro não é mais como era antigamente e o país do futuro envelheceu mal.

*Rafael Rossi – Escritor, roteirista, professor de História, consultor de imagem e profissional de marketing. Postado inicialmente no perfil do autor numa plataforma de rede social.