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Por Almir Cezar Filho*/
Fotos: reproduções/
A segurança pública tornou-se um dos maiores pontos cegos da esquerda brasileira. Desde o brizolismo, passando pelo PT e chegando até setores mais radicais, como o PCO, existe uma sensação de vergonha ou receio em tratar do tema.
O tabu cria o efeito perverso de parecer que a esquerda “não tem propostas”, quando, na verdade, evita debater segurança por medo de ser confundida com punitivismo. Ao abrir mão desse debate, deixa espaço livre para que a direita monopolize o tema com soluções superficiais e violentas.
É verdade que políticas sociais — educação, saúde, emprego e cultura — são essenciais para enfrentar a criminalidade. Mas não são suficientes. A falsa dicotomia entre políticas sociais e segurança pública impede que se pense o problema em sua complexidade.
Reduzir a violência exige ações estruturais, mas também exige presença do Estado no território, investigação, inteligência e polícia qualificada. Não basta repetir que “a solução é educação”; isso funciona no longo prazo, enquanto a população sofre o problema no curto.
Além disso, o modelo de polícia vigente contribui para a reprodução da violência. É um modelo operacionalizado por ações de confronto e não por investigação.
Investigações sobre facções, lavagem de dinheiro e redes de tráfico raramente são prioridade; o que predomina são operações espetaculares.
Isso tem uma razão: a lógica corporativista dentro das forças de segurança dificulta mudanças e inibe o fortalecimento de uma polícia técnica e investigativa. Ao mesmo tempo, setores políticos classificam o problema como “narco-terrorismo”, como se a mudança de rótulo resolvesse a questão. Rotular não enfrenta raízes estruturais.
Operações de confronto, frequentemente celebradas como “mão firme”, raramente atacam os chefes do tráfico. Não desmantelam redes econômicas, não quebram fluxos financeiros, não reduzem o poder territorial das facções.
E, muitas vezes, produzem um efeito colateral perverso: ajudam a reorganizar o controle de territórios, beneficiando uma facção contra outra — algo já visto em conflitos como Alemão x Penha. Resultado: muita morte, pouca transformação real.
A população, exausta da ausência do Estado, muitas vezes prefere uma ação violenta — qualquer ação — à sensação de abandono. Esse desespero é capitalizado politicamente pela direita, que oferece a “solução” da guerra: militarização, confronto e belicização das políticas de segurança. É simples, é estética, é midiática — mas não resolve. E, ao contrário, aprofunda o ciclo de violência.
Se quisermos falar em soluções reais, precisamos enfrentar os problemas internos das polícias: falhas na seleção e formação, salários baixos, dificuldade de retenção de profissionais qualificados, sucateamento da Polícia Civil e da perícia técnico-científica.
Sem investigação e inteligência, não existe política de segurança eficaz. Não é possível combater organizações complexas apenas com fuzis e blindados.
Quando a esquerda assume governos e se aventura nesse tema sem um projeto claro, muitas vezes reproduz a mesma cartilha bélica da direita. Ou pior: por tentar “provar que não é fraca”, acaba agindo exatamente como aquilo que critica. A ausência de uma proposta progressista para segurança pública não é apenas um erro: é a entrega de um campo estratégico para o adversário.
A disputa sobre segurança pública não se vence com silêncio. Vence-se com projeto.
*Almir Cezar Filho – Economista, colunista da Rádio Censura Livre e apresentador do programa Economia É Fácil [na RCL] e editor da ANotA – Agência de Notícias Alternativas.
Postado inicialmente no perfil do autor numa plataforma de rede social.