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UMA CHUVA DE PAPEL PICADO - CL Web Rádio

UMA CHUVA DE PAPEL PICADO

Copacabana, 1964.

Por Wendell Setubal*

Foto: Agência Câmara de Notícias (28/03/2014).

PAPEL picado costuma ser pra comemorar. Milhares eram atirados pelas janelas da avenida Atlântica. Eu tinha 12 anos e estava ajudando o técnico do time de praia Dínamo (onde eu e meu irmão jogávamos) a prender na areia a rede de uma das traves.

PERGUNTEI o que era aquilo. Ele se virou para ver e gritou “Generais filhos da puta, deram o golpe, destituíram o Jango”. Dínamo, time de praia, de Copacabana, tinha a camisa vermelha, igual ao da Rússia. Tião Macalé era quem batia o gongo no programa de Ary Barroso. Era comunista. Estava na Globo, atuando em programas humorísticos, e fazia um quadro que levava o público a gargalhar. Tentava conquistar uma mulher linda e bem mais alta; ela não dava importância e ele dizia o bordão “Ó que crioula difícil”. Os identitaristas ainda não haviam nascido, caro leitor.

CHEGUEI em casa e perguntei ao meu pai sobre o golpe. Direitista, lacerdista, ele disse que os militares iam pôr ordem na bagunça. No dia seguinte, foi a uma passeata para comemorar a vitória na avenida Rio Branco, com um milhão e meio de pessoas (lembre que a população era menor). Eu fui à praia. 2 de abril de 1964. Não sabia que isto iria mudar a minha vida.

O GOLPE militar se consolidou depois do comício de 13 de março. No discurso, João Goulart, de origem varguista, anunciou que desapropriaria terras, inclusive terras dele, Jango. Sem pagar indenização.

FOI desastroso porque o PSD, que tinha base social no campo, deixou de votar com o governo, isolando o partido de Jango, o PTB.

NO dia 30, João Goulart foi à Assembleia dos sargentos, que reivindicavam o direito de votar e ser votado. Alguns assessores eram contra a ida, pois seria vista como apoio e quebra da hierarquia. Mesmo assim, ele foi e no dia seguinte o general Mourão Filho saiu de Minas para destituir Goulart, e o governador de Minas, Magalhães Pinto, oficializou que não reconhecia mais o governo federal.

O BRIGADEIRO Teixeira foi ao palácio no dia 31 e propôs a Jango atacar com aviões as tropas em Três Rios, divisa com Juiz de Fora. O presidente recuou, queria evitar derramamento de sangue. Foi para Porto Alegre. O brigadeiro era do Partido Comunista. Foi para a Reserva. Seu filho, Raul, era da minha sala, colégio público na rua República do Peru.

POIS é, em 1964 um filho de brigadeiro estudava em uma escola pública!!!

JANGO só foi para o Uruguai no fim da tarde, mas Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara, declarou a vacância do cargo com o presidente ainda no país. A direita iria transgredir a lei várias vezes, através do que chamou de Ato Institucional.

O PCB estava perplexo, pois acreditava no legalismo das Forças Armadas. Os militares queriam, no início, varrer a esquerda, arrumar a economia e entregar o poder aos civis. Gostaram do poder e dos empregos nas estatais. Ficaram 21 anos.

*Wendell Setubal – Revisor de texto com Pós-Graduação pela PUC-MG. Publicado originalmente na página Fato e Ideias no Facebook.

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